mercredi 21 août 2013

Extrait de "O Sol Morreu Aqui de João Negreiros"

Je vais essayer de vous parler du dernier livre, qui est un roman de Joao Negreiros. O Sol morreu aqui Veraçor éditora 2013 . Je m’excuse, mais je m’exprime mieux en français. Je dirais que c’est un roman complètement surréaliste, où des personnages s’opposent et se superposent, construit comme une pièce de théâtre, une mise en scène. Dérangeant parfois, poétique, brutal, humoristique tout à la fois, et une pléiade de jeux de mots. Au centre de ce roman une grand-mère et une maison, qui s’anime tout les étés avec de nouveaux personnages à chaque saison, des personnages qui sont des plaies ouvertes, parfois atteint de folie, La femme battu, l’enfant roi, l’artiste déchu par exemple et tout tourne autour de cette grand-mère et de cette maison…. Je ne vous raconte pas la chute qui en est une… Extraordinaire, tout bouge, tout est vivant dans se roman la moindre chaise à la maison, même le soleil…d’une grande qualité littéraires, on peut parfois sentir un certain malaise en le lisant… Mais j’ais adoré.

Vou tentar falar sobre o último livro, que é um romance de João Negreiros. O Sol Morreu Aqui Veraçor Editora 2013. Diria que é um romance surreal, onde as personagens se opõem e se sobrepõem, construído como uma peça de teatro, encenado. Às vezes perturbante, poético, brutal, humorado, ao mesmo tempo, e trocadilhos. Ao centro deste romance uma avó e uma casa que ganha vida cada verão com novos p...ersonagens a cada temporada, personagens que são feridas abertas, por vezes, cheias de loucura,, e tudo se passa em volta da avó e da casa .... Eu não divulgo a queda queda é uma ... Extraordinária, tudo se move, tudo está vivo neste romance, a cadeira, a casa, mesmo o sol ... uma grande qualidade literária, às vezes pode se sentir algum desconforto ... adoreiAfficher la suite

Extrait de "O sol Morreu aqui" de João Ngreiros, Ver Açor Editora 2013
http://www.veracor.pt/view.php?id=81

"A casa empurra a sujidade das varandas com uma mangueira. A casa sacode cobertores até serem velhos à mesma, mas limpos de novo. A casa rega as rosas que vivem às custas da Primavera. A casa confere os talheres no aparador da sala. A casa até faz um trejeito ou uma magia, não dá para ver bem, mas um vómito expulsa as cortinas que eram de tecido traumatizável. O tecido estava manchado com memórias e tinha nódoas por causa de palavras feias e de se agarrarem a elas dedos que as amarravam como se fossem a roupa de quem quase chegou para os salvar. A casa deita no alpendre as cortinas inúteis e marcadas pela vida e pelas queimaduras de cigarros. Depois a casa substitui os pratos lascados por pratos novos. O problema é a casa comprar pratos de serviços diferentes mas não se importa a casa com a diferença. Ficam então prateleiras como mantas de retalhos por onde se pode comer. A casa tem saudades dos que lá estiveram mas tenta não se lembrar deles. Foi a maneira que arranjou de evitar um sentimento que desmoronasse. A casa é muito inteligente. Tenta encolher as arestas onde se possa esconder maldade. Tenta arredondar bicos de mobília, tenta comer borbotos que piquem em almofadas fofas, tenta engolir o pó que faça as pessoas tossir impropérios. A casa é muito inteligente e faz tudo para evitar o destino, o destino é destituído e não quer saber mas a casa há-de manter-se de pé, lutando por um futuro melhor..."

mardi 20 août 2013

Hommage à Urbano Tavares Rodrigues

Destino I Trago na fonte e estrela do fogo da minha revolta Nunca aceitaria qualquer tirania nem a do dinheiro nem a do mais justo ditador nem a própria vida eu aceito... tal como ela é com todas as promessas do amor e da juventude e a parda doença de envelhecer a morte em cada dia antecipada II Na mais lebrega alfurja ou na cama de folhas macias da floresta onde a chuva te adormeceu há sempre um idamante de sol cujos raios te penetram de ventura ao sonhares a palavra liberdade III Quando a terra poluída tiver sorvido toda a água dos lagos e das fontes hei-de levar o meu fantasma até ao porto sonoro onde a esperança cai a pique sobre o mar dos desejos sem limite

Primavera A Primavera vem dançando com os seus dedos de mistério e turquesa Vem vestida de meio dia e vem valsando entre os braços dum vento sem firmeza Nu como a água o teu corpo quieto e ausente Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso Loiro o rosto o olhar não sei se mente se de tão negro e parado é um aviso do destino que me fixa finalmente Ai, a Primavera vai passando com os seus dedos de mistério e de turquesa Segue Primavera vai cantando Que será do nosso amor nesta praia de incerteza Urbano Tavares Rodrigues, in Horas de Vidro

O Amolecimento pela Sociedade de Consumo Nos países subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder instituído, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, originário por via de regra da média e da pequena burguesia ou mais raramente das classes proletárias, contesta o statu quo, propõe soluções revolucionárias ou, quando estas não podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar fazê-lo pela crítica, violenta ou irónica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os beneficiários do sistema de produção ergueram contra as aspirações da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude idêntica de inconformismo; porém, os resultados da sua actividade de criação e reflexão tornam-se matéria vendável e, nalguns casos, matéria integrável. O consumo do objecto artístico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opinião, que os meios de comunicação de massa, em escala larguíssima , exercem, torna-se, senão totalmente inócuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conteúdo crítico. Despotencializa-se. Amolece. É o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve, ou procura absorver, as próprias formas políticas de exercício das liberdades ditas essenciais, quando aceita no seu seio o escritor, acusador iconoclasta por natureza, recuperando-o em banho asséptico, limando-lhe os dentes. Mas, entendamo-nos, nem sempre o artista se dá conta dessa operação, até porque nem sempre, de facto, é ele próprio o paciente da operação que lhe reduz a perigosidade, senão que o é, sim, a sua obra, a qual, pelo poder diminutivo de uma dada comercialização, se rectifica. Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver"

A Repulsa do Poder pelo Homem de Letras A repulsa dos poderes constituídos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a expressão racionalista do filósofo e do sociólogo como a apreensão intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como ameaça aos sistemas de imposição de ideias ou de coerciva persuasão), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excepções (que nalguns casos já beiram o limite da assimilação) em outsider, representa uma destruição de valores culturais, que se traduz não poucas vezes em atraso de gerações. Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produções vertebradas, que são autênticos gritos da inteligência rebelde e onde não raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de períodos em que se obscurece a comunicação normal entre os homens e em que a acção do livro, reduzida embora em extensão, ganha uma acutilante qualidade crítica e concentra a dignidade de minorias advertidas culturalmente e firmes no seu espírito de resistência. Mas o saldo não deixa de ser negativo quando se considera não já tudo aquilo que o escritor suporta e sofre, mas - e sobretudo - o muito que a camada dos leitores perde pela falta de convívio efectivo com aqueles que são não, é claro, os meus mentores, mas os que injectam na massa ideias novas, que divisam, na zona penumbrosa em que o futuro se vai pouco a pouco libertando da hora viva, os moventes sinais de amanhã. Urbano Tavares Rodrigues, in 'Ensaios de Escreviver'

O Fim do Amor Trágico e Romântico? Vivemos, de facto, numa época em que a noção de amor trágico e romântico, que herdámos do século dezanove, se tornou inactual, embora continue ainda a ser vivida por muitos - e até com o carácter de construção moral e estética - essa relação extremamente apaixonada, exigente e exclusiva. A reclamação da liberdade erótica não me parece que de algum modo tenda a degradar a vida, conquanto possa dessublimizá-la e do mesmo passo desmistificá-la, precisamente no propósito de a tornar mais lúcida e mais generosa. Afigura-se-me que na contestação de todas as prepotências firmadas em preconceitos, em princípios estabelecidos apriorísticamente, há sempre um nexo muito íntimo entre a reinvindicação da liberdade erótica, da liberdade no trabalho e da liberdade política. E, naturalmente, quando se dá uma explosão desta espécie, é como uma pedra que rola e que vai agregando uma série de materiais e descobrindo a sua própria composição até às zonas mais profundas da sua estrutura. Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver"

O poeta Manuel Alegre escreveu um poema dedicado ao escritor Urbano Tavares Rodrigues, que morreu sexta-feira em Lisboa aos 89 anos. Na Morte de Urbano Tavares Rodrigues No dia 9 de Agosto de 2013 houve uma vaga de calor. De certo modo ele morreu dentro de um seu romance- Não foi notícia de abertura. Os telejornais mostraram mulheres gordas em Carcavelos e um sujeito pequenino (parece que ministro) a falar de “cultura política nova.” Mais tarde este dia será lembrado como a data em que morreu Urbano Tavares Rodrigues. Manuel Alegre Lisboa, 9/8/2013

Para o escritor Urbano Tavares Rodrigues, que morreu hoje aos 89 anos, a escrita era "absolutamente vital, era uma forma de respirar, era uma forma de viver", afirmou à agência Lusa o autor José Luís Peixoto. "É o desaparecimento de uma pessoa que era muito minha amiga. É o desaparecimento de um amigo que, para lá da amizade, sempre admirei muito como escritor, ainda desde um tempo em que não imaginava que o viesse a conhecer", afirmou o escritor. Urbano Tavares Rodrigues morreu hoje em Lisboa, deixando uma extensa obra de ficção e ensaio, da qual fazem parte "A Noite Roxa", "Os Insubmissos", "Imitação da Felicidade", "O Supremo Interdito" ou "Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada". A partir da Amazónia, no Brasil, onde participará num festival local, José Luís Peixoto revelou, com alguma emoção, algumas afinidades que partilhava com Urbano Tavares Rodrigues, com quem tinha "uma amizade muito profunda", nomeadamente "o Alentejo, a escrita, o gosto pela vida". "Encarava a escrita como algo muito íntimo e quer era ao mesmo tempo um encontro com o outro", sublinhou o autor. “A obra de Urbano inicia-se com um livro de contos, A porta dos limites, em 1952, e termina com a sua morte no ano em que publica um último livro, também de contos, A imensa boca dessa angústia. Um pouco mais de sessenta anos de uma intensa actividade em planos diversos, do ensino ao jornalismo, da política à intervenção cultural, fizeram de Urbano uma referência que, por motivos decorrentes da sua filiação partidária, sofreu nas décadas mais recentes um relativo apagamento público. É uma visão redutora da sua obra que importa superar e que nos permitirá encontrar um espírito que, desde o início, tem uma visão cosmopolita e moderna do mundo, enfermando aqui e ali de alguma ingenuidade ou de juízos circunstanciais que se explicam pelo modo apaixonado como o escritor se relacionava com o mundo, mas que não prejudicam a ousadia e a lógica com que é construído cada livro: uma lógica que decorre de uma ambição à Balzac de escrever a Comédia Humana do nosso povo, retratando as camadas sociais que ele estuda com o olhar do psicólogo mas também do crítico; e uma ousadia que não recua perante os aspectos mais marginais ou por vezes sórdidos de uma realidade que, no entanto, não são descritos com um intuito de abjeccionismo (qualidade tão louvada nalgum sector do nosso meio cultural) mas com uma compreensão que se aproxima da ternura, como sucede nos últimos livros de contos que, nalguns casos, serão microcontos, ou, num plano mais elaborado nos contos e novelas desde A noite roxa (1956) até As máscaras finais (2000). Se Urbano se mantém no que se pode designar como um registo realista que tem no romance Bastardos do Sol (1959) um momento culminante da visão desencantada de um Alentejo visto à lupa de um olhar analítico da sociedade rural que Urbano testemunhou na sua adolescência, a experiência de viagens e de uma actividade de leitor em França quando a Ditadura o afastou da nossa Universidade, a que só regressa depois do 25 de Abril para escrever uma tese sobre um dos seus modelos literários, Teixeira Gomes, que é um marco nos estudos desse autor, dissemina-se por muitos dos seus textos. E o contacto que teve com movimentos e autores da segunda metade do século XX, desde o existencialismo que perpassa nalgum universo ligado à boémia intelectual e ao registo na primeira pessoa, buscando o fundo do espírito humano, até ao novo romance de um Robbe-Grillet (que traduziu), conferem-lhe uma dimensão nada provincial e que se inscreve na busca de processos literários sempre renovados. Curiosamente, quando se poderia pensar que, no final da sua vida, Urbano se iria repetir ou estagnar naquilo que fizera o reconhecimento da sua obra de autor comprometido, vamos pelo contrário encontrar uma constante e empenhada experimentação de formas e temáticas actuais: o romance (quase) policial de 2005, O eterno efémero, em que encontramos a introdução do email na narrativa; a novela histórica em Os cadernos secretos do prior do Crato (2007), sob a forma de um caderno autobiográfico desse frustrado herói da crise aberta com Alcácer-Quibir; uma aproximação ao fantástico em contos de A última colina (2008); e também a poesia em prosa de belos livros como Margem da Ausência (1998) ou Rostos da Índia e alguns sonhos (2005). Em verso também escreveu algumas letras de fado, e o último encontro que tive com ele, há poucos meses, foi para lhe dar (e ler porque a sua vista já não o permitia com facilidade) um posfácio para um livro de poemas que esperava publicar este ano. E é esta imagem de um homem afável e tolerante, com quem convivi em diversos momentos, que guardo dele, desde um distante momento nas eleições de 1969, em plena Ditadura, em que o vi avançar ao longo da Avenida da República, junto ao largo de Entrecampos, com um carro da Pide a segui-lo. Não o conhecia pessoalmente, mas a coragem com que, nessa como noutras ocasiões, afrontou o salazarismo, por vezes com graves consequências para a sua vida e a sua saúde, é um dos aspectos que ligam obra e vida. Sem nunca abdicar da sua ideologia marxista e da fidelidade ao seu partido, Urbano não era um homem dogmático, e um sinal disso encontra-se na sua actividade crítica onde aquilo que punha em primeiro lugar era a qualidade estética. Mas o ponto em que, creio, ele gostará de ser lembrado, é a sua relação com o amor que percorre todos os livros, desde o amor meramente sexual, em todas as formas em que se manifesta, até ao sentimento amoroso que conduz à paixão. Neste plano, a sua obra é um catálogo de situações que retratam, como nenhuma outra obra da nossa literatura talvez o faça, talvez com a excepção do seu admirado Teixeira Gomes, essas vivências muitas vezes secretas e censuradas, e a coragem com que o faz, ultrapassando muitas vezes "a porta dos limites", será sem dúvida uma das marcas que deixa na nossa literatura e que o torna um autor a não esquecer.” Nuno Judice

« Faleceu esta manhã, sexta-feira 09.08.13., um dos mais insignes e marcantes vultos da Cultura portuguesa contemporânea: Urbano Tavares Rodrigues. Escritor, poeta, ensaísta, lutador incansável pelo usufruto da Liberdade por todos, Urbano Tavares Rodrigues, enriqueceu Portugal com uma Obra que, verdadeiramente, dignifica o País intra e extra-muros. Nunca procurando as luzes da ribalta, e muito men...os comendas ou falsas loas, o Escritor imenso que é, e o Homem que foi, pautaram- se por uma coerência rara na sociedade portuguesa. A humildade e a profundidade vestiam-lhe bem, mas a vastidão do que nos lega só será genuinamente homenageado pela leitura do que, com tamanho esmero, nos deixou, única vontade do artista que se confunde com a sua Obra. Quer no campo político como no estético, Urbano Tavares Rodrigues lutou, em nosso nome, por um país mais justo e solidário que, afinal, nunca chegou a ver. Talvez seja essa a nossa missão, nestes tempos em que egos desmedidos de alguns políticos imberbes abocanham como selvagens, e em seu próprio beneficio, os bens públicos: prosseguir nesta batalha, através de todos meios, para varrer a imbecilidade boçal que ocupa hoje os corredores do poder e é bandeira dos mais altos dirigentes da Nação. Em câmara ardente esta noite na sede da SPA em LX, a Urbano Tavares Rodrigues presto modestamente este tributo, e agradeço, não só as longas horas de prazer que me proporcionou a leitura das suas obras, como o que através da sua vivência me ensinou. » Pedro Abrunhosa

Nascido em Lisboa em 1923, Urbano Augusto Tavares Rodrigues passou a infância no Alentejo, perto de Moura, o que em muito influenciou a sua vida e obra. Ficcionista, investigador e crítico literário, licenciou-se em Letras com uma tese intitulada Manuel Teixeira Gomes: Introdução à sua obra (1950), tendo regressado por várias vezes aos estudos sobre aquele autor, nomeadamente na sua dissertação de doutoramento, Manuel Teixeira Gomes: o discurso do desejo. Impedido, por motivos políticos, de exercer a docência universitária em Portugal, foi leitor de Português em diversas universidades estrangeiras (Montpellier, Aix e Paris, entre 1949 e 1955). Depois da revolução de 25 de Abril de 1974 retomou a actividade docente em Portugal, jubilando-se em 1993 como Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É membro efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Sendo um dos mais prolíficos e prestigiados escritores da segunda metade do século XX em Portugal, a obra de Urbano, que está traduzida em diversas línguas, atinge várias dezenas de títulos, entre conto, romance, crónica e ensaio. Tem, além disso, colaboração dispersa por publicações variadas, entre as quais o Bulletin des Études Portugaises, Colóquio-Letras, JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Vértice, Nouvel Observateur, etc., tendo sido director da revista Europa e redactor principal do Jornal de Letras e Artes e jornalista de O Século e de O Diário de Lisboa, periódicos onde fez crítica teatral. Enquanto repórter, percorreu grande parte do mundo, tendo reunido os seus relatos de viagem nos volumes Santiago de Compostela (1949), Jornadas no Oriente (1956) e Jornadas na Europa (1958) entre outros livros de viagens que mais tarde publicou. A ficção de Urbano Tavares Rodrigues tem como característica principal a tomada de consciência do indivíduo face a si mesmo e aos outros, processo que se inicia a partir da perspectiva física das personagens (a dimensão erótica e a constatação da morte marcam a sua escrita) até ao reconhecimento de uma identidade social e política. O autor considera que, numa primeira fase, a sua obra foi influenciada pelo existencialismo francês da década de 50; mais tarde, na sequência da sua detenção no forte de Caxias, durante o regime ditatorial, passou a revelar-se como uma literatura de resistência, a que se seguiu um novo período, mais optimista, no pós-25 de Abril. Nos seus últimos livros regressou à literatura de combate e de consciencialização, formulada em termos da interrogação angustiada sobre a crise de valores do ambiente finissecular, e presente nos romances O Supremo Interdito (2000) e Nunca diremos quem sois (2002) e no volume de crónicas God Bless America! (2003). Urbano participou, como actor (fazendo o papel de si próprio) no filme Visita - Ou Memórias e Confissões – realizado por Manoel de Oliveira em 1982 e até hoje não comercializado. Manoel de Oliveira, em entrevista a João Matos Cruz, disse que «Visita surge de uma circunstância, que provocou o acaso, o qual resultou num filme. Eu entendi que devia guardar aquela memória, e passei-a ao cinema... » – a circunstância de que o filme resultou foi o encontro do realizador e do escritor em 1963, na prisão. Urbano Tavares Rodrigues comemorou em 2003 cinquenta anos de vida literária. Em 2002 foi-lhe atribuído o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e em 2000 o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autore

Figure essentielle de la littérature portugaise, l'écrivain Urbano Tavares Rodrigues est mort le 9 août à Lisbonne, à 89 ans. Il y était né le 6 décembre 1923 dans une famille de propriétaires terriens de l'Alentejo. Diplômé de la faculté des lettres de Lisbonne, ce sympathisant communiste fut lecteur de portugais en France, entre 1949 et 1955. Il y découvrit l'existentialisme sartrien, qui allait irriguer son œuvre multiple, entre romans, essais et chroniques de voyages. De retour au Portugal, il fut incarcéré à plusieurs reprises en 1963 et 1968, et ses livres, comme L'imitation du bonheur (1966), interdits par le régime. Après la chute de celui-ci, en 1974, il put de nouveau enseigner la littérature à Lisbonne, et il poursuivit son œuvre. L'auteur de Bâtards du Soleil, de L'Or et le Rêve, de Tu ne tueras point, ou encore de Violeta et la nuit (tous publiés aux éditions de La Différence, qui ont annoncé sa mort) avait été marié à un autre grand écrivain portugais, Maria Judite de Carvalho, décédée en 1998.

Par Raphaëlle Leyris Le monde 13/08/2013

samedi 29 juin 2013

Capitães da areia / Capitaines des sables de Jorge Amado

CAPITÃES DA AREIA

Os Capitães da Areia é um grupo de meninos de rua. O livro é dividido em três partes. Antes delas, no entanto, via uma seqüência de reportagens e depoimentos, explicando que os Capitães da Areia é um grupo de menores abandonados e marginalizados, que aterrorizam Salvador. Os únicos que se relacionam com eles são Padre José Pedro e uma mãe-de-santo, Don'Aninha. O Reformatório é um antro de crueldades, e a polícia os caçam como adultos antes de se tornarem um. A primeira parte em si, "Sob a lua, num velho trapiche abandonado" conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães da Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes). Pedro Bala, o líder, de longos cabelos loiros e uma cicatriz no rosto, uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, que depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve; Volta Seca, afilhado de Lampião, que tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro; Professor, que lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso; Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva; Sem- Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (e numa das casas que vai é bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de verdade); João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em comando; Querido- de- Deus, um capoeirista amigo do grupo, que dá algumas aulas de capoeira para Pedro Bala, João Grande e Gato; e Pirulito, que tem grande fervor religioso. O apogeu da primeira parte é dividido em, quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e exercendo sua meninez; e quando a varíola ataca a cidade, matando um deles, mesmo com Padre José Pedro tentando ajudá-los e se indo contra a lei por isso. A segunda parte, "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", surge uma história de amor quando a menina Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia", e mesmo que inicialmente os garotos tentem tomá-la a força, ela se torna como mãe e irmã para todos. (O homossexualismo é comum no grupo, mesmo que em dado momento Pedro Bala tente impedi-lo de continuar, e todos eles costumam "derrubar negrinhas" na orla.) Professor e Pedro bala se apaixonam por ela, e Dora se apaixona por Pedro Bala. Quando Pedro e ela são capturados (ela em pouco tempo passa a roubar como um dos meninos), eles são muito castigados, respectivamente no Reformatório e no Orfanato. Quando escapam, muito enfraquecidos, se amam pela primeira vez na praia e ela morre, marcando o começo do fim para os principais membros do grupo. "Canção da Bahia, Canção da Liberdade", a terceira parte, vai nos mostrando a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o Rio de Janeiro para se tornar um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e passando por ilhéus; Pirulito se torna frade; Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães da Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães da Areia e se torna um líder revolucionário comunista.

Este livro foi escrito na primeira fase da carreira de Jorge Amado, e nota-se grandes preocupações sociais. As autoridades e o clero são sempre retratados como opressores (Padre José Pedro é uma exceção mas nem tanto; antes de ser um bom padre foi um operário), cruéis e responsáveis pelos males. Os Capitães da Areia são tachados como heróis no estilo Robin Hood. No geral, as preocupações sociais dominam, mas os problemas existenciais dos garotos os transforma em personagens únicos e corajosos, corajosos Capitães da Areia de Salvador.

Capitaines des sables

Dans un coin abandonné et désert des entrepôts de Bahia, grand port brésilien, vivent en marge de la société de nombreux gamins surnommés les " Capitaines des Sables ". Vêtus de guenilles, sales, quasi affamés, lâchant des jurons et fumant des mégots, ils sont en vérité les maîtres de la ville, ceux qui la connaissent totalement, ceux qui totalement l'aiment, ses poètes. Ils volent, participent à toutes sortes de mauvais coups, et si habilement que la police ne peut jamais les prendre sur le fait. Leur chef s'appelle Pedro Bala. Ses lieutenants sont le Professeur (parce qu'il aime lire), Patte-Molle, le Chat, Sucre-d'Orge, Coude-Sec, etc. Un jeune prêtre, l'abbé José Pedro, s'intéresse à eux, essaie de les ramener dans une voie meilleure. S'il réussit à se faire aimer d'eux, il ne parvient pas à les amender et n'aboutit qu'à se faire très mal voir de ses supérieurs. C'est l'existence mouvementée, dramatique et poétique à la fois, de cette bande de petits chenapans qui unissent la ruse et l'audace des hommes faits à l'innocence et au charme des enfants qu'évoque le roman de Jorge Amado.

Né dans une plantation de cacao autour de Salvador de Bahia, Jorge Amado est lié dès son enfance au monde des travailleurs et des paysans brésiliens. Bahia, la "terre violente", constitue le décor essentiel de Pays du Carnaval en 1931. La même année, le jeune écrivain et journaliste milite très activement au Parti Communiste, alors interdit au Brésil. Son engagement lui a valu une suite d'exils, d'errances et de retours. Emprisonné une douzaine de fois, ses livres furent brûlés et détruits. Contraint à l'exil en Argentine en 1941, il fut pourtant de retour dans son pays en 1945, où il fut élu député communiste. Lorsque le Parti Communiste fut à nouveau interdit, il s'exila encore, se réfugia en France, puis à Prague, pour enfin revenir au Brésil. De fait, Jorge Amado est aussi bien célèbre dans son pays qu'à l'étranger. Son lyrisme engagé transparaît dans nombre de ses livres et notamment dans 'Le Pays sans retour', publié en 1942. L'inauguration d'une fondation portant son nom à Salvador de Bahia en 1987 consacre la pérénnité de son engagement. Le romancier meurt à 1988 ans sans avoir pu terminer son ultime roman.

Jorge Amado (1912-2001) nasceu na Fazenda Auricídia, em Ferradas, município de Itabuna, Bahia, no dia 10 de agosto de 1912. Filho do fazendeiro de cacau, João Amado de Faria e Eulália Leal Amado. Passou a infância na cidade de Ilhéus, onde aprendeu as primeiras letras. Cursou o secundário no Colégio Antônio Vieira em Salvador. Aos 12 anos foge do internato e vai para Itaporanga, em Sergipe, onde morava sua avô. Passou os anos da sua adolescência no meio do povo, tomando conhecimento da vida popular que iria marcar fortemente sua obra de romancista. Começou com 14 anos a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da "Academia dos Rebeldes", grupo de jovens que, juntamente com o "Arco e Flecha" e o "Samba", desempenharam importante papel na renovação das letras baianas. Comandados por Pinheiro Viegas, figuraram na Academia dos Rebeldes, além de Jorge Amado, os escritores João Cordeiro, Dias da Costa, Alves Ribeiro, Edison Carneiro, Valter da Silveira, e Clóvis Amorim. Em 1927, com apenas 15 anos, ingressou como repórter no "Diário da Bahia" e também escrevia para a revista "A Luva". Aos dezenove anos publicou seu primeiro romance "O País do Carnaval". Nessa época já estava no Rio de Janeiro, em contato com nomes importantes da literatura. Foi redator chefe da revista carioca "Dom Casmurro", em 1939. Em 1933 lança seu segundo livro "Cacau". Depois vieram vários romances que retratavam o dia a dia da cidade de Salvador, entre eles "Mar Morto", 1936 e "Capitães de Areia", 1937, que retrata a vida de menores delinquentes, sendo na época proibido pela censura do Estado Novo. Jorge Amado foi casado com a escritora Zélia Gattai (1916-2008), que aos 63 anos começou a escrever sua memórias. Teve dois filhos, João Jorge, sociólogo e autor de peças para teatro infantil, e Paloma, psicóloga, casada com o arquiteto Pedro Costa. É irmão do médico neuropediatra Joelson Amado e do escritor James Amado. Participou do movimento da frente popular da Aliança Nacional Libertadora. Foi exilado na Argentina, no Uruguai, em Paris, em Praga e ainda morou em diversos países. Recebeu vários prêmios, títulos honoríficos. Foi membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da República Democrática da Alemanha; da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Paulista de Letras; e membro especial da Academia de Letras da Bahia. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de nº 23. Jorge Leal Amado de Faria faleceu no dia 6 de agosto. Seu velório foi realizado no Palácio da Aclamação em Salvador. Foi cremado, a seu pedido, e suas cinzas foram colocadas ao pé de uma mangueira, em sua casa na Bahia.

mercredi 26 juin 2013

Em brève, O sol Morreu Aqui de João Negreiros

On bouscule ses habitudes littéraires, rien n'est simple, l'être humain et ses travers, un roman qui bouscule même sans notre aprobation, d'une grande qualité littéraire, les personnages s'oposent, se superposent, qui est bon, qui est mauvais ? à lire absolument !!! Magnifiquequement brutal et ironique, sans aucun lissage

Lançamento do livro vencedor do Prémio Literário Nacional Dias de Melo, "O Sol Morreu Aqui" de João Negreiros, o qual o júri do prémio constituído por Luiz Fagundes Duarte, Isabel Pires de Lima, Maria de Jesus Maciel, Daniel de Sá e Manuel Tomás declarou vencedor por unanimidade e considerou "...uma obra de inegável valor literário muito superior à maior parte das que se vão publicando em Portugal".

vendredi 21 juin 2013

Je hais les feux rouges par Antonio Lobo Antunes

Extrait du livre des chroniques :

Je hais les feux rouge. En premier lieu parce qu'ils sont toujours rouges quand je suis pressé et verts quand j'ai tout mon temps, sans parler de l'orange qui provoque en moi une indécision horrible : dois-je freiner ou accélérer ? J'accélère, puis je freine, je réaccélère et à peine ai-je freiné de nouveau que déjà une fourgonnette emboutit ma portière, déjà une foule de gens se rassemble dans l'espoir de voir du sang, déjà un type armé d'une clé anglaise sort de la fourgonnette en me traitant de sombre crétin, déjà ma compagnie d'assurances me propose chaleureusement d'en changer pour un concurrent quelconque, déjà me voici privé de voiture pendant une semaine, me voilà déjà au bord du trottoir à faire des signes de naufragé aux taxis, me voilà déjà à payer une fortune pour chaque voyage où je dois par-dessus le marché supporter le ver luisant magique et la Ste Vierge en aluminium sur le tableau de bord, le squelette en plastique pendu au rétroviseur, l'autocollant représentant une demoiselle à chapeau et cheveux longs près de la pancarte "ne pas fumer je suis asthmatique"... La deuxième et principale raison qui m'incite à haïr les feux rouges tient au fait qu'à chaque fois que je m'arrêtes surgissent derrière ma vitre des créatures invraisemblables : vendeurs de journaux, vendeurs de pansements adhésifs, des dames vertueuses avec des boîtes en métal pendues à leur poitrine qui vous collent autoritairement sur le coeur le crabe du Cancer, les gros balèzes de la Ligue pour les aveugles dans le sillage d'un haut-parleur sur le toit d'un tas de ferraille flambant neuf, le citoyen digne à qui on a volé son porte-monnaie et qui a besoin d'acheter son billet de train pour Porto, le tuberculeux avec son certificat à l'appui, toute la caste des infirmes (micocréphales, macrocéphales, boiteux, bossus, bras étiques, mains avec six doigts, mains sans un doigt, mongoliens, dirigeants de partis politiques, etc.), sans compter l'escouade des pompiers volontaires qui ont besoin d'une ambulance, les lauréats de l'Université de Combra, en cape et soutane, qui ont décidé de faire un voyage de fin d'études en Birmanie et les jeunes toxicos qui n'ont pas réussi à voler un seul lecteur de cassettes ce jour-là. Résultat : au premier feu rouge je n'ai déjà plus de monnaie. Au deuxième je me retrouve sans veste. Au troisième sans chaussure. Au cinquième tout nu. Au sixième je donne ma Volkswagen. Au septième j'attends que le feu passe au rouge pour assaillir à mon tour, mêlé à la multitude de pompiers, étudiants, drogués et microcéphales, le premier véhicule qui s'arrête. En moyenne je change cinq fois de vêtements et de voiture avant d'atteindre ma destination, et quand j'arrive, au volant d'un camion TIR, flottant dans un pantalon gigantesque, mes amis se plaignent que je ne suis pas ponctuel.!

Odeio semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho nenhuma, sem falar do amarelo que provoca em mim uma indecisão terrível: travo ou acelero? travo ou acele¬ro? travo ou acelero? acelero, depois travo, volto a acelerar e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo de chave-inglesa na mão saiu da furgoneta a chamar-me Seu camelo, já a companhia de seguros me propõe calorosamente que a troque por uma rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago aos táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e ainda por cima tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa Senhora de alumínio do tablier, o esqueleto de plástico pen¬durado do retrovisor, o autocolante da menina de cabelos compridos e chapéu ao lado do aviso «Não fume que sou asmático», proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja. A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: ven¬dedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vi¬zinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões (microcefálicos, macrocefálicos4, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios6, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongoloides, dirigentes de partidos políticos, etc.) sem contar o grupo de Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma viagem de fim de curso à Birmânia e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia. Resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnado para assaltar por meu turno, de mistura com uma multidão de bombeiros, de estudantes, de drogados e de microcefálicos o primeiro automóvel que aparece. Em média mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixam-se de eu não ser pontual.