lundi 21 octobre 2013

La mort du père de José Luis Peixoto

« Morreste-me » de Luis Peixoto, traduction français enfin disponible sous le titre « La mort du père », à partir du 6 novembre 2013, Grasset. Pour moi un des plus beaux livres de l’auteur, un très beau texte bouleversant.

Après la mort de son père, l'auteur est de retour dans la maison de son enfance où chaque recoin éveille un souvenir. Il s'était promis de ne pas oublier son père. Et il ne l'oublie pas. Car la meilleure arme contre la mort, c'est la mémoire... Pourtant, confie l'auteur, il a toujours considéré ce texte comme de la fiction, 'car moins de cinquante pages ne peuvent suffire à parler de la mort de quelqu'un, les pages ne peuvent contenir la vie d'une personne et le vide qu'elle laisse derrière elle'.

vendredi 18 octobre 2013

Paulo Abrunhosa

Diário de um Dromedário Paulo Abrunhosa. Desenhos de PAM (Paulo Anciães Monteiro)) Quasi Edições 2001

1958 - 2001

Nasceu a 12.05.1958, no Porto. Nesta cidade, faz a primária e parte do secundário no extinto Colégio João de Deus, de onde sai para frequentar o Liceu António Nobre e aí concluir, em 1979, o curso complementar. Depois de cumprir o serviço cívico obrigatório, matricula-se, no ano seguinte, na Universidade de Coimbra. Em 1985 licencia-se em Direito, tendo, de seguida, iniciado o estágio para a advocacia, que não conclui. Avesso a todo o "establishment", recusa alinhar com as gerações engravatadas do seu tempo. Em 1987 funda, em colaboração com seu irmão Nuno, a revista "Metro", a primeira de distribuição gratuita em Portugal. Com o número especial dessa revista, publicado no Verão de 1994 e exclusivamente dedicado ao Algarve, vence, nesse mesmo ano, o 1." Prémio da Imprensa" da Região de Turismo daquela Província. Entretanto, entre a escrita e a noite, é convidado a dinamizar o espaço Café da Praça, promovendo aí iniciativas únicas de carácter lúdico e cultural, mormente entre as novas tendências da música de dança, marcando de forma indelével uma certa boémia da cidade. A morte apanhou-o aos quarenta e três anos de idade, no auge das suas capacidades, não lhe tendo consentido concluir este trabalho, cujos prefácio e epílogo deixou incompletos.

Paulo era um príncipe da palavra, alguém que se deslocava entre a suavidade das nuvens e a tempestuosidade da certeza com que se batia pela sua visão do mundo Não era fácil ser o seu irmão mais novo, mas com que saudade recordo as discussões que mantínhamos e nas quais eu me afundava numa sensação de pequenez e ignorância Batalhou até ao fim, numa coerência ímpar que a mais • ninguém conheci. Imperturbável no seu sobretudo branco, que lhe assentava como um manto real, o Paulo viveu de acordo com as suas próprias regras, das quais este livro é, apenas, mais um capitulo surpreendente. Uns olhos transparentes de bondade e luz, uma criança feliz embalada pelo carinho que devotava a todos quantos tiveram o privilégio de consigo privar, as mãos longilíneas que abraçavam o tempo com a firmeza delicada com que prendia uma cintura de mulher, o chá' tomado a altas horas da manhã, entre sonhos adiados e memórias de uma vida plenamente preenchida. Era assim o Paulo que, em tudo quanto tocava, deixava • um pouco de si e revelava inesperadamente o melhor de todos nós. Partiu tão depressa quanto viveu, sem deixar que nos despedíssemos com os beijos que tanto ' gostava de dar. Levou consigo a música que lhe habitava a alma, como se quisesse adiar o adeus, a última palavra que gostava de pronunciar. Irónico como sempre o Paulo privou-nos do nosso destino de irmãos, de nos sentarmos numa qualquer, tarde soalheira de Setembro, na fresca sombra das figueiras da Tapada fumando um cigarro impossível, entre histórias fantásticas e risos que lhe escondiam as lágrimas de um coração maior de que a terra que pisava. Como tanto gostava teve a palavra final, ou porventura ter-se-á levantado de mesa para ir jà ali e voltar talvez amanhã, quem sabe depois, no seu conceito infinito de tempo, sabendo que o aguardamos com a tranquilidade da espera que votamos aos anjos.

Pedro Abrunhosa Porto, 16 outubro 2001

Paulo était un prince du verbe, quelqu'un qui se déplaçait entre la douceur des nuages et les rafales de la certitude avec laquelle il se battait pour sa vision du monde. Ce n'était pas facile d'être son frère cadet , mais avec quelle nostalgie je me rappelle les discussions que nous maintenions et dans lesquelles je me noyais dans une sensation de petitesse et d’ignorance. Il s’est battu jusqu'à la fin, dans une cohérence unique que je n´ai connue chez personne d´autre.. Imperturbable dans son pardessus blanc, qui lui tombait comme un manteau royal, Paulo a vécu conformément à ses propres règles, dont ce livre est à peine un chapitre surprenant. Des yeux transparents de bonté et de lumière, un enfant heureux bercé par l'affection qu’il consacrait à tous ceux qui ont eu le privilège de le connaître en privé, les mains longilignes qui étreignaient le temps avec la fermeté délicate avec laquelle il prenait une taille de femme, le thé pris aux hautes heures du matin, entre des rêves reportés et des mémoires d'une vie pleinement remplie. Il était ainsi Paulo, dans tout ce qu’il touchait, il laissait un peu de lui et se révélait inopinément le meilleur de nous tous. Il est parti aussi vite qu’il a vécu, sans nous laisser lui dire adieu, avec les baisers qu´il aimait tant donner. Il a emporté avec lui la musique qui habitait son l'âme, comme s’il voulait reporter son adieu, le dernier mot qui aimait prononcer. Ironique comme toujours, Paulo nous a privés de notre destin de frères, de nous asseoir par une quelconque après midi ensoleillée de septembre, à l’ombre fraîche des figuiers de la prairie, en fumant une cigarette impossible, entre des histoires fantastiques, des rires qui cachaient les larmes d´un cœur plus grand que la terre qu´il foulait.. Comme il aimait tant, il aura eu le dernier mot, ou par hasard se sera-t-il levé de table pour aller là bas et revenir demain peut-être, qui sait plus tard, dans sa conception infinie du temps, sachant que nous l’attendons avec la tranquillité de l’espérance que nous vouons aux anges.

Pedro Abrunhosa le 16 octobre 2001

EU

Ao espremer a memória

à procura da história

que fosse um relato,

mais ou menos exacto,

daquilo que eu sou,

o que me sobrou

foi a evidência

de que a minha existência

é um enigma,

o paradigma

de uma grande incerteza.

Qual é a natureza

do meu personagem?

Serei só a imagem?

Um ser virtual?

Ou sou mesmo real?

Será que eu existo

e sou filho de Cristo?

Ou poderei eu ser Ele,

só que noutra pele?

E se eu for uma lesma?

Existo na mesma?

Seja lá o que eu for,

a verdade é que a dor

de não saber o que faço

faz de mim um palhaço.faz de mim um palhaço.

Serei um fala-barato?

Um sacana de um chato?

Alguém importante?

Ou um grilo falante,

de consciência pesada

e sem nenhuma piada?

Viverei esta vida

que me é tão querida,

sem nenhuma razão?

Ou serei um peão

de um destino com nexo?

E qual é o meu sexo?

Sou uma mulher,

uma fêmea qualquer?

Ou um homem sem cio,

em nome do brio?

Afinal, quem sou eu?

Um fariseu?

Uma pessoa decente?

Um docente doente,

meio pedófilo?

E se eu for germanófilo

e com tendências nazis?

Ou um juiz infeliz

que decide ao acaso?

E um soldado raso?

E um rato de esgoto,

uma espécie de arroto,

em forma de escroque,

sem ter rei, nem ter roque?

Serei eu mongolóide,

ou um asteróide

a riscar o Universo?

E haverá um reverso

da minha medalha?

E uma mortalha

que me cubra na morte?

Qual será a minha sorte?

Serei um profeta?

Um mero pateta?

Um poderoso Czar,

ainda que cheio de azar?

Um reles de um chulo,

que só sabe estar fulo

com a luta

da puta

pelo dinheiro?

Ou serei um banqueiro,

um milionário?

Posso ser um otário,

um pária divino,

desprovido de tino.

Ou até um vidente,

que vive da mente,

uma alma penada

na berma da estrada,

ou mesmo um ministro

de algo sinistro!

Posso ser tudo isso!

Mas…e se eu for um noviço,

carregado de mágoa

por não ter um cão-d´agua

com pedigree?

Cometerei hara-kiri?

Qual é, então, o meu karma?

Terei uma arma

apontada à cabeça?

E será que estou nessa,

de correr esse perigo

e ser o meu próprio inimigo?

Afinal, eu sou quem?

Um zé-ninguém?

Um bicho careta,

de vocação incorrecta?

Ou apenas um cura,

numa paróquia obscura?

E se, pelo contrário,

eu for um vigário,

um parlapatão?

Ou será que não?

Será que sou mouco,

tido por louco

e confinado a um hospício?

Ou serei um patrício,

um compadre da terra

que, depois de ir à guerra,

passou à reserva?

E será que me enerva

pensar que sou bicha,

que gosto de picha

e de andar no engate?

Se calhar o ataque

é a minha defesa!

e saberei estar à mesa

e medir o que como?

Ou serei o Rei Momo

de um qualquer carnaval?

Quem sou eu, afinal?

Será que sou místico,

ou, apenas, um dístico,

que diz, sem emenda,

que eu já estou à venda?

Serei flor que se cheire,

ou, somente, um alqueire

de grãos de poeira?

E ainda haverá quem me queira?

Não serei desprezado,

como um pobre falhado?

Talvez, isso sim,

seja o que pensa de mim,

quem me conhece.

E se só me apetece

ser um super-herói

que combate e destrói

o Mal no papel?

Ou uma criatura cruel,

um sombrio guru,

que, por Belzebu,

não tem piedade?

E qual é a minha idade?

Serei eu já velho

quando me vejo ao espelho,

ou, ainda, um bebé

que mal anda de pé?

E, mesmo sem graça,

terei uma raça?

Será que sou branco

e por isso é que manco?

Ou serei, antes, um preto

que vive num ghetto,

um diabo amarelo,

nem feio, nem belo,

ou um pele-vermelha

de uma tribo já velha?

Afinal, sou o quê?

Um parabéns-a-você?

Um ponto num i?

Um snob de um dandy?

Ou serei um espirro

saído de um esbirro

da mafia local?

Ou o Pai Natal?

Será que ainda sou virgem,

ou já não me atingem

os desejos alheios?

E onde estão os meus meios

de sobrevivência?

Será que a ciência

também explica

por que é que a genica

tanta falta me faz?

Tal como a paz

de que tanto preciso

para poder ter juízo?

Mas que raio é que eu sou?

Alguém que voou

para outra distância,

ou alguém cheio de ânsia?

Um fora-da-lei?

Um amante da grei'

Um grito do povo?

A gema de um ovo?

Um Kamikaze?

Um militante de base' Um libertino

de instinto felino?

Um anjo-da-guarda'

Uma eminência parda?

A ovelha ranhosa

de uma família vaidosa?

Será por ser magro

que eu ainda trago

comida nos dentes?

Ou serão resistentes

os termos do acordo

que fará de mim gordo?

Serei chefe de orquestra?

Uma abelha-mestra?

Uma fada-madrinha?

Um oficial da marinha?

Serei um artista

ou, antes, autista?

Um homem formoso,

ou um monstro horroroso?

Será excesso de zelo,

o pesadelo

em que, suponho,

se tornou o meu sonho?

Estarei eu à beira

de perder a estribeira

e de, agindo sem norte,

virar bobo da corte?

Ou serei um suspiro,

o estampido de um tiro

disparado por Deus,

num gesto de adeus

e de aviso que o mundo

está moribundo?

Espremi, espremi,

mas tudo o que vi,

foi, da minha memória,

brotar, inglória,

uma pinga de sangue,

uma lágrima exangue,

que me escorreu pelos dedos

e caiu nos lajedos

do firmamento!

E, nesse momento,

ouvi uma voz

que, apanhando-me a sós,

sussurrou-me baixinho:

"Não sejas mesquinho!

Não queiras ser nada!

Porque a caminhada,

e para onde ela aponta,

é tudo o que conta!"

vendredi 11 octobre 2013

Album Entre nos e as palavras - Rodrigo Leao Os Poetas

singular projecto de música para poemas portugueses, da autoria de Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes e Margarida Araújo.

L'apocalypse des travailleurs de Valter Hugo Mae

«je ne peux me payer que la mort, la vie est trop chère pour moi.»

Dans le choix des libraires

Maria da Graça est femme de ménage, marié à un marin médiocre qu'elle tente d'empoisonner, gentiment... Elle est au service de monsieur Ferreira, un vieux cochon qui la viole allègrement et régulièrement. Mais Maria trouve ça pratiquement normal, voire y prend même quelques plaisirs. En outre, l'homme est cultivé, et il lui parle de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart, de grands hommes capables d'impressionner Dieu. Or Maria a maintenant quelques soucis avec Dieu, ou plutôt avec Saint-Pierre qu'elle rencontre chaque nuit dans ses rêves surtout après le suicide de Ferreira. Elle souhaite ardemment le rejoindre et Saint-Pierre n'est pas totalement convaincu («quel provocateur ce saint pierre, quel salaud») et ne lui prête guère attention mais Maria n'est pas femme à se laisser faire, "je ne suis pas femme à fuir mes obligations" ! La meilleure amie de Maria, Quiteria, est également femme de ménage. Même cruauté de la vie («... je ne peux me payer que la mort, la vie est trop chère pour moi.»), même âpreté et difficultés mais aussi même quête de bonheur, même désir de vivre, d'aimer et de sexe. Quiteria se prostitue et tombe amoureuse d'un Ukrainien étrange, déglingué vivant un exil douloureux. Seul le petit chien, Portugal, qu'elle a recueilli, semble serein et regarde tout ça avec calme sans porter aucun jugement. Un portrait cru et direct d'une société portugaise où le peuple se débat vigoureusement dans des difficultés immenses mais que la quête d'amour aide à survivre. Le style est vif, rythmé et singulier, l'humour décapant et les personnages atypiques et attachants. ■Les présentations des éditeurs : 20/06/2013 Maria da Graça est femme de ménage, elle a l'ambition de mourir d'amour. Elle rêve toutes les nuits qu'elle essaye d'entrer au paradis pour y retrouver monsieur Ferreira, son patron, qui, bien qu'avare et ayant abusé d'elle, lui parlait de Goya, Bergman ou Mozart, des hommes capables d'impressionner Dieu en personne. Mais les portes du paradis sont encombrées de marchands de souvenirs et saint Pierre la repousse à chaque fois. Elle verse aussi tous les soirs quelques gouttes d'eau de Javel dans la soupe de son mari. Ouitéria, son amie, se prostitue mais tombe amoureuse d'un émigré ukrainien désespéré. Comme Maria da Graça, tous les personnages de ce roman cherchent leur paradis et, pleins d'espoirs ou sans espoir, ils pensent que le bonheur vaut tous les risques, même s'il faut sauter allègrement dans l'abîme. V.H. Mãe dessine ici avec humour un portrait caustique et tendre de notre temps, à travers des personnages attachants qui avancent sur les chemins sinueux d'une société perturbée.

«Un livre majeur.» Diario de Noticias

«Éblouissant... L'originalité de la puissance créative de l'auteur est immense.» Expresso

«Un livre admirable dont la maîtrise stylistique nous manipule et nous enivre du début à la fin.» Publico

Valter Hugo Mãe est né en Angola en 1971 et vit actuellement au Portugal. Poète, musicien et performer, il a reçu le prix José Saramago pour son premier roman.

■La revue de presse Catherine Simon - Le Monde du 19 septembre 2013 Comment faire de l'or avec des clichés ? Comment faire de l'humain avec ces pantins aliénés, qui ont si bien assimilé les poncifs qu'on leur a collés sur le front ? En prenant ces clichés au sérieux, répond l'écrivain portugais Valter Hugo Mãe : en les faisant grossir sous la loupe de la fiction, puis en les retournant comme un gant, avant d'en tirer des histoires d'amour, tragiques et drôles, plus vraies que nature... Ecrit sans virgule et sans majuscule, le roman de Valter Hugo Mãe peut se lire comme un hommage au grand écrivain António Lobo Antunes qui, parmi les premiers, s'était proposé de " rompre avec la ligne droite du récit classique et l'ordre naturel des choses ". C'est sans effort aucun que le lecteur suit les démêlés de la tendre Maria et du suicidaire " Monsieur Ferreira " ; sans même y penser qu'il observe la longue marche de Quitéria et d'Andriy, tant l'écriture est à la fois fluide, entraînante, finement rythmée. L'Apocalypse des travailleurs, troisième volet d'une tétralogie, entamée en 2004 et achevée en 2010, est le premier roman traduit en français de Valter Hugo Mãe, né en 1971 en Angola. Son Apocalypse est l'une des plus réjouissantes découvertes de l'automne.

■Les courts extraits de livres : 20/06/2013 La nuit, Maria da Graça rêvait qu'à la porte du paradis il y avait des vendeurs de souvenirs de la vie sur terre, des marchands aux boniments hauts en couleur, qui cherchaient à attirer son attention en agitant les bras comme s'ils avaient du poisson frais à vendre, s'attroupaient autour de son âme et lui proposaient pour un prix modique des objets censés atténuer le grand manque dont souffraient les morts, les derniers charlatans, pensait-elle, gênée même d'avoir à penser après sa mort, ou de se dire que c'était peut-être une bonne chose qu'on lui offre avant son entrée au paradis la possibilité d'emporter avec elle un objet, une image matérialisée, quelque chose comme la preuve d'une vie antérieure ou d'une saudade extrême, elle leur demandait de la laisser passer, elle était pressée, elle insistait, ne savait pas trop ce qu'il convenait de faire et ne pouvait rien décider, rien de rien, elle était perplexe et ne voulait pas courir le risque cupide d'avoir à s'engager dans l'éternité à partir d'un acte de possession, gagnée par une compréhensible angoisse, anxiété ou excitation d'être là pour la première fois, elle gardait l'espoir que saint pierre puisse l'éclairer et, un pied dedans et l'autre encore dehors, de pouvoir acheter le requiem de Mozart, la reproduction des fresques de Goya ou l'édition française de à l'ombre des jeunes filles en fleur. Les portes du paradis étaient basses, contrairement à ce à quoi on pouvait s'attendre, il fallait se pencher considérablement pour passer, et dans la foule de ceux qui se démenaient pour qu'on s'occupe d'eux, la confusion était dramatique, créant de la violence et faisant s'élever de fréquents nuages de poussière, maria da Graça avait échappé aux vendeurs et elle essayait de calculer de quel côté de la place elle devait se diriger pour être sûre d'atteindre l'entrée, ce ne serait pas facile de parcourir ces cent mètres sans être bousculée, ou pire, sans être prise pour un de ces excités, et de se trouver ainsi obligée de demeurer à l'extérieur furieuse pour l'éternité. Ils ne resteraient pas ici éternellement, pensa-t-elle, ils allaient continuer vers l'enfer, traînés par l'oreille comme des mal élevés, peut-être une fourgonnette passerait-elle et les ramasserait comme des chiens errants, des hommes en sortiraient pour prendre en chasse ceux qui se trouvaient dans ce cul-de-sac, les capturant à l'aide de grands filets qui les immobiliseraient, la place serait nettoyée pour un moment. Maria da Graça suivait son chemin en essayant le plus possible de longer les murs, convaincue qu'étant décédée d'une façon si terrible, elle mériterait tous les pardons et serait admise au paradis, Maria da Graça se présenta ainsi, j'étais employée de maison, oui, femme de ménage, comme si elle n'était femme que de temps en temps, le temps de faire le ménage, et saint pierre lui demandait, qu'est-ce que cela veut dire, et elle répondait, c'est monsieur Ferreira qui m'a tuée, depuis longtemps il me faisait du mal et je me disais que cela devait arriver, saint pierre s'inclinait, la tête en arrière et le ventre en avant, et riait en disant, mais madame, cela n'a aucune importance à présent, les morts sont tous pareils, ils n'ont pas de profession et ce qu'ils ont appris à faire ne leur sert à rien, ou alors vous croyez qu'il y a ici des chambres à nettoyer, Maria da Graça insistait, mais je suis morte sans le vouloir, c'est le vieux, pour moi je serais (...)

mercredi 9 octobre 2013

Les Renards Pâles de Yannick Haenel chez gallimard

"Il suffit que l'invivable affecte quelques-uns pour que le vivable n'existe plus pour personne."

Ce n'est pas du tout un roman lusophone, mais un énorme coup de cœur littéraire. un bel engagement poétique, notre liberté chaque fois plus restreinte en faveur du contrôle, des êtres humains traités comme de simples déchets, le désœuvrement, le vide "l'intervalle" qui reconstruit, renaitre, rencontrer, s'engager, donner la parole aux sans papiers, aux sans abris, aux sans emploi, enflammer Paris, bruler nos cartes d'identités comme geste universel... un romans humainement très riche, d'un point de vu d'où on a pas l'habitude d'observerr.

Le je se fond dans le nous et disparait au milieu des autres, sous des masques les identités disparaissent dans les flammes aussi et forment un tout. Passer de la bordure, au centre, là ou tout s'embrase et se révolte

Voici plusieurs extraits des renards pâles de Yannick Haenel. Retrouver dans une grande sensibilité poétique, un sentiment politique

« Quelqu’un a sorti ses papiers d'identité et les a jeté dans le feu. le geste c'est répété tout au long de la rue de Rivoli et en quelques minutes tous ceux qui avaient des papiers d'identités les ont fait disparaitre à travers les flammes" "Lorsque plus personne n'à de papiers, est-il encore possible de repérer les sans-papiers ? Voici que nos masques se fondent dans une absence générale de papiers. Voici que cette nuit place de la concorde, les sans-papiers se confondent avec tous ceux qui n'en ont plus. Voici qu'il n'y à plus de sans-papiers, puisque les papiers n'existent plus voici que s'invente à travers les flammes l'utopie d'un monde débarrassé de l'identité "

"Les larmes aussi sont une parole, la plus vivante sans doute, parce qu'elle arrose nos corps asséchés comme si elles leur prodiguaient la fertilité."

"J'étais dans le trou de rat de la République là où la politique consiste à étouffer les cris"

"Selon lui notre époque était celle où la police avait remplacée la politique. Ce remplacement était historique, il signait notre servilité par le mot "police" il n'entendait pas seulement les forces de l'ordre, mais tout ce qui en nous accepte d'être réduit, notre asservissement n'aurait bientôt plus de limite, puisque la parole politique était morte, et que seul le control était en vie. "Nous n'avons plus d’existence politique""

" C’est bien de guerre qu’il s’agit : une guerre civile divise la France, comme tous les pays qui suspendent le droit de certaines personnes en criminalisant leur simple existence. Elle oppose les étrangers « indésirables », comme vous dites, et forces de polices. Le plus souvent elle est dissimulée pour des raisons politiques : ainsi reste-t-elle en partie secrète ; mais il arrive, pour les mêmes raisons, qu’on l’exhibe : elle dégénère en spectacles, et les médias en présentant les sans papiers comme des délinquants qui enfreignent une loi, maquille cette guerre en lutte contre l’insécurité "

"L'existence est quelque chose qui arrive sur vous comme un animal en pleine course, L'existence quand elle vous arrive ne fait pas attention à vous : elle vous précipite avec elle dans son élan, et alors vous vous mettez à vivre"

" Le tumulte à sa façon est un vide ; le néant s'y agite avec ferveur qu'il dérobe aux journée calmes"

" Le seul espoir viendrait de ceux qui se taisent, ceux qui n'ont pas accès à la parole parce qu'ils sont exclus de la parole, les sans abris, les sans emplois, les sans papiers - toute la communauté des SANS . Leur silence est sacré, parce qu'il est ce qui reste. Dans un sacrifice il y a toujours un reste ; et le jour où ceux dont l'existence est récusée par l'économie trouverons une parole, alors la politique existera de nouveau"

"On confond le"temps libre" avec l'oisiveté, mais le temps à toujours été libre : rien n'est plus libre, plus loisible que le temps ; ce sont les humains qui le gâchent, en le remplissant de leur cafouillage, est-il possible d'habiter le vide ?

Y'a bien longtemps que je n'ai eu un aussi gros coup de coeur pour un livre, j'y ai trouvé une dimension humaine et universelle

mercredi 21 août 2013

Extrait de "O Sol Morreu Aqui de João Negreiros"

Je vais essayer de vous parler du dernier livre, qui est un roman de Joao Negreiros. O Sol morreu aqui Veraçor éditora 2013 . Je m’excuse, mais je m’exprime mieux en français. Je dirais que c’est un roman complètement surréaliste, où des personnages s’opposent et se superposent, construit comme une pièce de théâtre, une mise en scène. Dérangeant parfois, poétique, brutal, humoristique tout à la fois, et une pléiade de jeux de mots. Au centre de ce roman une grand-mère et une maison, qui s’anime tout les étés avec de nouveaux personnages à chaque saison, des personnages qui sont des plaies ouvertes, parfois atteint de folie, La femme battu, l’enfant roi, l’artiste déchu par exemple et tout tourne autour de cette grand-mère et de cette maison…. Je ne vous raconte pas la chute qui en est une… Extraordinaire, tout bouge, tout est vivant dans se roman la moindre chaise à la maison, même le soleil…d’une grande qualité littéraires, on peut parfois sentir un certain malaise en le lisant… Mais j’ais adoré.

Vou tentar falar sobre o último livro, que é um romance de João Negreiros. O Sol Morreu Aqui Veraçor Editora 2013. Diria que é um romance surreal, onde as personagens se opõem e se sobrepõem, construído como uma peça de teatro, encenado. Às vezes perturbante, poético, brutal, humorado, ao mesmo tempo, e trocadilhos. Ao centro deste romance uma avó e uma casa que ganha vida cada verão com novos p...ersonagens a cada temporada, personagens que são feridas abertas, por vezes, cheias de loucura,, e tudo se passa em volta da avó e da casa .... Eu não divulgo a queda queda é uma ... Extraordinária, tudo se move, tudo está vivo neste romance, a cadeira, a casa, mesmo o sol ... uma grande qualidade literária, às vezes pode se sentir algum desconforto ... adoreiAfficher la suite

Extrait de "O sol Morreu aqui" de João Ngreiros, Ver Açor Editora 2013
http://www.veracor.pt/view.php?id=81

"A casa empurra a sujidade das varandas com uma mangueira. A casa sacode cobertores até serem velhos à mesma, mas limpos de novo. A casa rega as rosas que vivem às custas da Primavera. A casa confere os talheres no aparador da sala. A casa até faz um trejeito ou uma magia, não dá para ver bem, mas um vómito expulsa as cortinas que eram de tecido traumatizável. O tecido estava manchado com memórias e tinha nódoas por causa de palavras feias e de se agarrarem a elas dedos que as amarravam como se fossem a roupa de quem quase chegou para os salvar. A casa deita no alpendre as cortinas inúteis e marcadas pela vida e pelas queimaduras de cigarros. Depois a casa substitui os pratos lascados por pratos novos. O problema é a casa comprar pratos de serviços diferentes mas não se importa a casa com a diferença. Ficam então prateleiras como mantas de retalhos por onde se pode comer. A casa tem saudades dos que lá estiveram mas tenta não se lembrar deles. Foi a maneira que arranjou de evitar um sentimento que desmoronasse. A casa é muito inteligente. Tenta encolher as arestas onde se possa esconder maldade. Tenta arredondar bicos de mobília, tenta comer borbotos que piquem em almofadas fofas, tenta engolir o pó que faça as pessoas tossir impropérios. A casa é muito inteligente e faz tudo para evitar o destino, o destino é destituído e não quer saber mas a casa há-de manter-se de pé, lutando por um futuro melhor..."

mardi 20 août 2013

Hommage à Urbano Tavares Rodrigues

Destino I Trago na fonte e estrela do fogo da minha revolta Nunca aceitaria qualquer tirania nem a do dinheiro nem a do mais justo ditador nem a própria vida eu aceito... tal como ela é com todas as promessas do amor e da juventude e a parda doença de envelhecer a morte em cada dia antecipada II Na mais lebrega alfurja ou na cama de folhas macias da floresta onde a chuva te adormeceu há sempre um idamante de sol cujos raios te penetram de ventura ao sonhares a palavra liberdade III Quando a terra poluída tiver sorvido toda a água dos lagos e das fontes hei-de levar o meu fantasma até ao porto sonoro onde a esperança cai a pique sobre o mar dos desejos sem limite

Primavera A Primavera vem dançando com os seus dedos de mistério e turquesa Vem vestida de meio dia e vem valsando entre os braços dum vento sem firmeza Nu como a água o teu corpo quieto e ausente Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso Loiro o rosto o olhar não sei se mente se de tão negro e parado é um aviso do destino que me fixa finalmente Ai, a Primavera vai passando com os seus dedos de mistério e de turquesa Segue Primavera vai cantando Que será do nosso amor nesta praia de incerteza Urbano Tavares Rodrigues, in Horas de Vidro

O Amolecimento pela Sociedade de Consumo Nos países subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder instituído, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, originário por via de regra da média e da pequena burguesia ou mais raramente das classes proletárias, contesta o statu quo, propõe soluções revolucionárias ou, quando estas não podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar fazê-lo pela crítica, violenta ou irónica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os beneficiários do sistema de produção ergueram contra as aspirações da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude idêntica de inconformismo; porém, os resultados da sua actividade de criação e reflexão tornam-se matéria vendável e, nalguns casos, matéria integrável. O consumo do objecto artístico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opinião, que os meios de comunicação de massa, em escala larguíssima , exercem, torna-se, senão totalmente inócuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conteúdo crítico. Despotencializa-se. Amolece. É o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve, ou procura absorver, as próprias formas políticas de exercício das liberdades ditas essenciais, quando aceita no seu seio o escritor, acusador iconoclasta por natureza, recuperando-o em banho asséptico, limando-lhe os dentes. Mas, entendamo-nos, nem sempre o artista se dá conta dessa operação, até porque nem sempre, de facto, é ele próprio o paciente da operação que lhe reduz a perigosidade, senão que o é, sim, a sua obra, a qual, pelo poder diminutivo de uma dada comercialização, se rectifica. Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver"

A Repulsa do Poder pelo Homem de Letras A repulsa dos poderes constituídos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a expressão racionalista do filósofo e do sociólogo como a apreensão intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como ameaça aos sistemas de imposição de ideias ou de coerciva persuasão), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excepções (que nalguns casos já beiram o limite da assimilação) em outsider, representa uma destruição de valores culturais, que se traduz não poucas vezes em atraso de gerações. Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produções vertebradas, que são autênticos gritos da inteligência rebelde e onde não raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de períodos em que se obscurece a comunicação normal entre os homens e em que a acção do livro, reduzida embora em extensão, ganha uma acutilante qualidade crítica e concentra a dignidade de minorias advertidas culturalmente e firmes no seu espírito de resistência. Mas o saldo não deixa de ser negativo quando se considera não já tudo aquilo que o escritor suporta e sofre, mas - e sobretudo - o muito que a camada dos leitores perde pela falta de convívio efectivo com aqueles que são não, é claro, os meus mentores, mas os que injectam na massa ideias novas, que divisam, na zona penumbrosa em que o futuro se vai pouco a pouco libertando da hora viva, os moventes sinais de amanhã. Urbano Tavares Rodrigues, in 'Ensaios de Escreviver'

O Fim do Amor Trágico e Romântico? Vivemos, de facto, numa época em que a noção de amor trágico e romântico, que herdámos do século dezanove, se tornou inactual, embora continue ainda a ser vivida por muitos - e até com o carácter de construção moral e estética - essa relação extremamente apaixonada, exigente e exclusiva. A reclamação da liberdade erótica não me parece que de algum modo tenda a degradar a vida, conquanto possa dessublimizá-la e do mesmo passo desmistificá-la, precisamente no propósito de a tornar mais lúcida e mais generosa. Afigura-se-me que na contestação de todas as prepotências firmadas em preconceitos, em princípios estabelecidos apriorísticamente, há sempre um nexo muito íntimo entre a reinvindicação da liberdade erótica, da liberdade no trabalho e da liberdade política. E, naturalmente, quando se dá uma explosão desta espécie, é como uma pedra que rola e que vai agregando uma série de materiais e descobrindo a sua própria composição até às zonas mais profundas da sua estrutura. Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver"

O poeta Manuel Alegre escreveu um poema dedicado ao escritor Urbano Tavares Rodrigues, que morreu sexta-feira em Lisboa aos 89 anos. Na Morte de Urbano Tavares Rodrigues No dia 9 de Agosto de 2013 houve uma vaga de calor. De certo modo ele morreu dentro de um seu romance- Não foi notícia de abertura. Os telejornais mostraram mulheres gordas em Carcavelos e um sujeito pequenino (parece que ministro) a falar de “cultura política nova.” Mais tarde este dia será lembrado como a data em que morreu Urbano Tavares Rodrigues. Manuel Alegre Lisboa, 9/8/2013

Para o escritor Urbano Tavares Rodrigues, que morreu hoje aos 89 anos, a escrita era "absolutamente vital, era uma forma de respirar, era uma forma de viver", afirmou à agência Lusa o autor José Luís Peixoto. "É o desaparecimento de uma pessoa que era muito minha amiga. É o desaparecimento de um amigo que, para lá da amizade, sempre admirei muito como escritor, ainda desde um tempo em que não imaginava que o viesse a conhecer", afirmou o escritor. Urbano Tavares Rodrigues morreu hoje em Lisboa, deixando uma extensa obra de ficção e ensaio, da qual fazem parte "A Noite Roxa", "Os Insubmissos", "Imitação da Felicidade", "O Supremo Interdito" ou "Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada". A partir da Amazónia, no Brasil, onde participará num festival local, José Luís Peixoto revelou, com alguma emoção, algumas afinidades que partilhava com Urbano Tavares Rodrigues, com quem tinha "uma amizade muito profunda", nomeadamente "o Alentejo, a escrita, o gosto pela vida". "Encarava a escrita como algo muito íntimo e quer era ao mesmo tempo um encontro com o outro", sublinhou o autor. “A obra de Urbano inicia-se com um livro de contos, A porta dos limites, em 1952, e termina com a sua morte no ano em que publica um último livro, também de contos, A imensa boca dessa angústia. Um pouco mais de sessenta anos de uma intensa actividade em planos diversos, do ensino ao jornalismo, da política à intervenção cultural, fizeram de Urbano uma referência que, por motivos decorrentes da sua filiação partidária, sofreu nas décadas mais recentes um relativo apagamento público. É uma visão redutora da sua obra que importa superar e que nos permitirá encontrar um espírito que, desde o início, tem uma visão cosmopolita e moderna do mundo, enfermando aqui e ali de alguma ingenuidade ou de juízos circunstanciais que se explicam pelo modo apaixonado como o escritor se relacionava com o mundo, mas que não prejudicam a ousadia e a lógica com que é construído cada livro: uma lógica que decorre de uma ambição à Balzac de escrever a Comédia Humana do nosso povo, retratando as camadas sociais que ele estuda com o olhar do psicólogo mas também do crítico; e uma ousadia que não recua perante os aspectos mais marginais ou por vezes sórdidos de uma realidade que, no entanto, não são descritos com um intuito de abjeccionismo (qualidade tão louvada nalgum sector do nosso meio cultural) mas com uma compreensão que se aproxima da ternura, como sucede nos últimos livros de contos que, nalguns casos, serão microcontos, ou, num plano mais elaborado nos contos e novelas desde A noite roxa (1956) até As máscaras finais (2000). Se Urbano se mantém no que se pode designar como um registo realista que tem no romance Bastardos do Sol (1959) um momento culminante da visão desencantada de um Alentejo visto à lupa de um olhar analítico da sociedade rural que Urbano testemunhou na sua adolescência, a experiência de viagens e de uma actividade de leitor em França quando a Ditadura o afastou da nossa Universidade, a que só regressa depois do 25 de Abril para escrever uma tese sobre um dos seus modelos literários, Teixeira Gomes, que é um marco nos estudos desse autor, dissemina-se por muitos dos seus textos. E o contacto que teve com movimentos e autores da segunda metade do século XX, desde o existencialismo que perpassa nalgum universo ligado à boémia intelectual e ao registo na primeira pessoa, buscando o fundo do espírito humano, até ao novo romance de um Robbe-Grillet (que traduziu), conferem-lhe uma dimensão nada provincial e que se inscreve na busca de processos literários sempre renovados. Curiosamente, quando se poderia pensar que, no final da sua vida, Urbano se iria repetir ou estagnar naquilo que fizera o reconhecimento da sua obra de autor comprometido, vamos pelo contrário encontrar uma constante e empenhada experimentação de formas e temáticas actuais: o romance (quase) policial de 2005, O eterno efémero, em que encontramos a introdução do email na narrativa; a novela histórica em Os cadernos secretos do prior do Crato (2007), sob a forma de um caderno autobiográfico desse frustrado herói da crise aberta com Alcácer-Quibir; uma aproximação ao fantástico em contos de A última colina (2008); e também a poesia em prosa de belos livros como Margem da Ausência (1998) ou Rostos da Índia e alguns sonhos (2005). Em verso também escreveu algumas letras de fado, e o último encontro que tive com ele, há poucos meses, foi para lhe dar (e ler porque a sua vista já não o permitia com facilidade) um posfácio para um livro de poemas que esperava publicar este ano. E é esta imagem de um homem afável e tolerante, com quem convivi em diversos momentos, que guardo dele, desde um distante momento nas eleições de 1969, em plena Ditadura, em que o vi avançar ao longo da Avenida da República, junto ao largo de Entrecampos, com um carro da Pide a segui-lo. Não o conhecia pessoalmente, mas a coragem com que, nessa como noutras ocasiões, afrontou o salazarismo, por vezes com graves consequências para a sua vida e a sua saúde, é um dos aspectos que ligam obra e vida. Sem nunca abdicar da sua ideologia marxista e da fidelidade ao seu partido, Urbano não era um homem dogmático, e um sinal disso encontra-se na sua actividade crítica onde aquilo que punha em primeiro lugar era a qualidade estética. Mas o ponto em que, creio, ele gostará de ser lembrado, é a sua relação com o amor que percorre todos os livros, desde o amor meramente sexual, em todas as formas em que se manifesta, até ao sentimento amoroso que conduz à paixão. Neste plano, a sua obra é um catálogo de situações que retratam, como nenhuma outra obra da nossa literatura talvez o faça, talvez com a excepção do seu admirado Teixeira Gomes, essas vivências muitas vezes secretas e censuradas, e a coragem com que o faz, ultrapassando muitas vezes "a porta dos limites", será sem dúvida uma das marcas que deixa na nossa literatura e que o torna um autor a não esquecer.” Nuno Judice

« Faleceu esta manhã, sexta-feira 09.08.13., um dos mais insignes e marcantes vultos da Cultura portuguesa contemporânea: Urbano Tavares Rodrigues. Escritor, poeta, ensaísta, lutador incansável pelo usufruto da Liberdade por todos, Urbano Tavares Rodrigues, enriqueceu Portugal com uma Obra que, verdadeiramente, dignifica o País intra e extra-muros. Nunca procurando as luzes da ribalta, e muito men...os comendas ou falsas loas, o Escritor imenso que é, e o Homem que foi, pautaram- se por uma coerência rara na sociedade portuguesa. A humildade e a profundidade vestiam-lhe bem, mas a vastidão do que nos lega só será genuinamente homenageado pela leitura do que, com tamanho esmero, nos deixou, única vontade do artista que se confunde com a sua Obra. Quer no campo político como no estético, Urbano Tavares Rodrigues lutou, em nosso nome, por um país mais justo e solidário que, afinal, nunca chegou a ver. Talvez seja essa a nossa missão, nestes tempos em que egos desmedidos de alguns políticos imberbes abocanham como selvagens, e em seu próprio beneficio, os bens públicos: prosseguir nesta batalha, através de todos meios, para varrer a imbecilidade boçal que ocupa hoje os corredores do poder e é bandeira dos mais altos dirigentes da Nação. Em câmara ardente esta noite na sede da SPA em LX, a Urbano Tavares Rodrigues presto modestamente este tributo, e agradeço, não só as longas horas de prazer que me proporcionou a leitura das suas obras, como o que através da sua vivência me ensinou. » Pedro Abrunhosa

Nascido em Lisboa em 1923, Urbano Augusto Tavares Rodrigues passou a infância no Alentejo, perto de Moura, o que em muito influenciou a sua vida e obra. Ficcionista, investigador e crítico literário, licenciou-se em Letras com uma tese intitulada Manuel Teixeira Gomes: Introdução à sua obra (1950), tendo regressado por várias vezes aos estudos sobre aquele autor, nomeadamente na sua dissertação de doutoramento, Manuel Teixeira Gomes: o discurso do desejo. Impedido, por motivos políticos, de exercer a docência universitária em Portugal, foi leitor de Português em diversas universidades estrangeiras (Montpellier, Aix e Paris, entre 1949 e 1955). Depois da revolução de 25 de Abril de 1974 retomou a actividade docente em Portugal, jubilando-se em 1993 como Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É membro efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Sendo um dos mais prolíficos e prestigiados escritores da segunda metade do século XX em Portugal, a obra de Urbano, que está traduzida em diversas línguas, atinge várias dezenas de títulos, entre conto, romance, crónica e ensaio. Tem, além disso, colaboração dispersa por publicações variadas, entre as quais o Bulletin des Études Portugaises, Colóquio-Letras, JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Vértice, Nouvel Observateur, etc., tendo sido director da revista Europa e redactor principal do Jornal de Letras e Artes e jornalista de O Século e de O Diário de Lisboa, periódicos onde fez crítica teatral. Enquanto repórter, percorreu grande parte do mundo, tendo reunido os seus relatos de viagem nos volumes Santiago de Compostela (1949), Jornadas no Oriente (1956) e Jornadas na Europa (1958) entre outros livros de viagens que mais tarde publicou. A ficção de Urbano Tavares Rodrigues tem como característica principal a tomada de consciência do indivíduo face a si mesmo e aos outros, processo que se inicia a partir da perspectiva física das personagens (a dimensão erótica e a constatação da morte marcam a sua escrita) até ao reconhecimento de uma identidade social e política. O autor considera que, numa primeira fase, a sua obra foi influenciada pelo existencialismo francês da década de 50; mais tarde, na sequência da sua detenção no forte de Caxias, durante o regime ditatorial, passou a revelar-se como uma literatura de resistência, a que se seguiu um novo período, mais optimista, no pós-25 de Abril. Nos seus últimos livros regressou à literatura de combate e de consciencialização, formulada em termos da interrogação angustiada sobre a crise de valores do ambiente finissecular, e presente nos romances O Supremo Interdito (2000) e Nunca diremos quem sois (2002) e no volume de crónicas God Bless America! (2003). Urbano participou, como actor (fazendo o papel de si próprio) no filme Visita - Ou Memórias e Confissões – realizado por Manoel de Oliveira em 1982 e até hoje não comercializado. Manoel de Oliveira, em entrevista a João Matos Cruz, disse que «Visita surge de uma circunstância, que provocou o acaso, o qual resultou num filme. Eu entendi que devia guardar aquela memória, e passei-a ao cinema... » – a circunstância de que o filme resultou foi o encontro do realizador e do escritor em 1963, na prisão. Urbano Tavares Rodrigues comemorou em 2003 cinquenta anos de vida literária. Em 2002 foi-lhe atribuído o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e em 2000 o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autore

Figure essentielle de la littérature portugaise, l'écrivain Urbano Tavares Rodrigues est mort le 9 août à Lisbonne, à 89 ans. Il y était né le 6 décembre 1923 dans une famille de propriétaires terriens de l'Alentejo. Diplômé de la faculté des lettres de Lisbonne, ce sympathisant communiste fut lecteur de portugais en France, entre 1949 et 1955. Il y découvrit l'existentialisme sartrien, qui allait irriguer son œuvre multiple, entre romans, essais et chroniques de voyages. De retour au Portugal, il fut incarcéré à plusieurs reprises en 1963 et 1968, et ses livres, comme L'imitation du bonheur (1966), interdits par le régime. Après la chute de celui-ci, en 1974, il put de nouveau enseigner la littérature à Lisbonne, et il poursuivit son œuvre. L'auteur de Bâtards du Soleil, de L'Or et le Rêve, de Tu ne tueras point, ou encore de Violeta et la nuit (tous publiés aux éditions de La Différence, qui ont annoncé sa mort) avait été marié à un autre grand écrivain portugais, Maria Judite de Carvalho, décédée en 1998.

Par Raphaëlle Leyris Le monde 13/08/2013